domingo, 20 de setembro de 2015

CAMILO E A ARTE DO EQUILIBRISMO

Camilo e a arte do equilibrismo


Érico Firmo 

A presença de Camilo Santana (PT) na filiação de Ciro Gomes ao PDT, com status de pré-candidato, já causou ciumeira entre os petistas. O governador não se limitou a comparecer ao ato de quarta-feira, gesto que, por si, já estaria carregado de simbologia. 

Também não se restringiu a elogiar o novo pedetista. Camilo se referiu a ele como “nosso grande líder no Ceará e com certeza nosso grande líder no Brasil para comandar aí os rumos desse País”. 

O governador é filiado a um partido há 13 anos no poder federal, que tem a atual presidente da República e um ícone com a força do ex-presidente Lula. Ao apontar Ciro como “grande líder para comandar os rumos do País”, relega a própria legenda a segundo plano, em favor do aliado local.

Desde agora, o governador precisará exercitar o equilibrismo entre o próprio partido, que está no poder federal, e o principal aliado, que pretende chegar lá. Deverá ser mais exigido com o tempo, à medida que essa intenção do PDT se confrontar mais diretamente com o projeto petista. Não é algo propriamente inédito. Desde a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2003, até a campanha de reeleição de Cid, em 2010, Ciro Gomes manteve, simultaneamente, aliança federal com o PT e parceria estadual com Tasso Jereissati (PSDB). E Cid Gomes, em seu primeiro mandato, teve PT e PSDB juntos em sua base. O próprio PT, hoje, é aliado do grupo dos Ferreira Gomes e, ao menos oficialmente, faz oposição ao prefeito Roberto Cláudio.

Essas composições, porém, sempre tiveram como pano de fundo o interesse maior do projeto de poder nacional dos grupos. Na hora de conflito, esse fator sempre prevaleceu. Por isso, o PSDB local foi descartado em 2010, em favor do PT. E por isso, a tarefa de Camilo ao se equilibrar é mais complexa.

CORAÇÃO PEDETISTA GRANDE E DE PORTAS ABERTAS

Na solenidade de filiação de Ciro, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, saudou a presença de Camilo Santana, filiado ao “partido coirmão” PT, segundo se referiu. Ele agradeceu pela visita do governador cearense à “modesta casa, mas de coração grande”. E declarou que o PDT está sempre pronto a “receber todos aqueles que tenham coração bom também”. Arrancou aplausos.

CAMILO FICA

Apesar da filiação ao PDT de todo o principal grupo responsável pela eleição de Camilo, o governador já disse que fica no PT. Há razões bastante pragmáticas para isso. Primeiro é que, como gestor do Estado, interessa a ele manter trânsito mais livre possível com Brasília. E ele assim tem feito. Com o grupo dos Ferreira Gomes já falando em candidatura presidencial, a saída dele do PT agora seria quase uma sinalização de rompimento. A todos interessa manter as pontes. E Camilo nem candidato será no ano que vem. Mesmo que futuramente decida se filiar também ao PDT – e não há nada sinalizado nessa direção até agora – não faria sentido precipitar isso agora. Além disso, é interessante politicamente para o grupo dos Ferreira Gomes que Camilo fique no PT, ao menos até 2016.

Claro que, como a coluna tem dito, a prioridade do grupo é o projeto nacional. Mas eles também querem, muito, reeleger Roberto Cláudio no próximo ano. O PT é peça importante nesse jogo. O partido tem reafirmado que faz oposição, embora a ênfase dessa postura na Câmara Municipal seja cada dia mais pálida. O projeto do grupo que detém a hegemonia na Capital é ter candidato contra Roberto Cláudio. Camilo prefere uma composição. Tem sinalizado isso até em eventos públicos. O prefeito, por sua vez, tem se articulado para ter uma forte aliança e um bom tempo de TV independentemente do PT. Isso fica mais fácil com a migração para o PDT. Porém, a eventual adesão do partido de maior bancada na Câmara dos Deputados não seria nada mau. Camilo ainda não agiu nessa direção. Mas deverá fazê-lo, no momento certo.

O governador evita entrar no debate eleitoral. Mas, a não ser que sinta não haver possibilidade de sucesso, deverá pressionar o PT, no próximo ano, a desistir da candidatura. Com o peso de quem controla o Governo do Estado, será uma voz certamente a ser ouvida.

O prefeito, por sua vez, tem negociado a adesão de vereadores a sua base. Porém, tem evitado investir sobre o PT. Sabe que qualquer intervenção pode provocar reações e atrapalhar ainda mais que ajudar. A questão será conduzida de forma cuidadosa. E, certamente, não ocorrerá sem enfrentamento. A definição petista será um dos embates cruciais de 2016.

CIRO E O DEVER DE FALAR MAL DOS AMIGOS

Havia expectativa de que Ciro Gomes chegasse ao PDT com duros ataques ao ajuste fiscal de Dilma Rousseff (PT). Não foi o que ocorreu. O ex-governador, ele próprio que admitiu na ocasião ser “pessoa muito perigosa, principalmente emocionada, com o microfone na mão”. As críticas ficaram mais para os pedetistas históricos. Ciro se deteve a questões conjunturais. Mas deixou uma cutucada sobre como vê o atual momento. “Cresci falando mal dos meus adversários. E agora é irresistível que fale mal dos meus amigos, pelo que está acontecendo no Brasil”.


O POVO Política | Coluna Política

Nenhum comentário:

Postar um comentário