sexta-feira, 31 de julho de 2015

O QUE CATTA PRETA NÃO DISSE

O que Catta Preta não disse

                                           Entrevista de Beatriz Catta Preta ao JN, delação premiada, operação lava jato
A entrevista da agora ex-advogada Beatriz Catta Preta ao Jornal Nacional, em que revelou as razões de ter abandonado sua profissão e a defesa dos réus da Operação Lava Jato, confirma algumas das suspeitas de todos. Catta Preta, responsável por nove dos acordos de delação premiada aprovados ou em análise na Justiça, se disse “ameaçada veladamente” e atribuiu a responsabilidade das ameaças a integrantes da CPI da Petrobras no Congresso. Eles a convocaram para prestar um depoimento em que justificasse a origem de seus honorários, dando a entender que ela recebera dinheiro sujo fora do país – fato que ela negou com veemência. Mas a entrevista deixou algumas perguntas fundamentais sem resposta.

A primeira é: de onde afinal vieram essas ameaças? Quem a ameaçou? Como? Ela tem alguma evidência concreta que possam embasar essa acusação? Aparentemente, não. Catta Preta falou apenas em ameaças veladas e no uso da imprensa para plantar informações contra ela. Falta explicar algo aí. O jogo político envolve notícias que atingem interesses de ambas as partes e, ao preparar a delação de réus da Lava Jato, era evidente que Catta Preta estaria sujeita a algum tipo de retaliação ou ataque daqueles acusados por esses réus. Que elementos ela tem, então, para atribuir um valor real às "ameaças veladas" contra ela, de modo a distingui-las da inócua guerrilha política do dia a dia?

A suspeita natural para a origem das ameaças recai, por insinuação, sobre o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara atingido recentemente por um depoimento articulado por Catta Preta, e sobre seus aliados na Câmara, os deputados Hugo Motta (PMDB-PB), presidente da CPI, e Celso Pansera (PMDB-RJ), autor do requerimento para convocá-la. Mas são apenas suspeitas. Com algum tipo de prova concreta, certamente teríamos uma acusação mais sólida para apurar. Na falta delas, aqueles que ameaçam poderão continuar ameaçando veladamente quem quiserem. Dificilmente serão desmascarados.

A segunda, e mais importante, questão é: por que o delator Júlio Camargo, ex-executivo da empreiteira Toyo Setal, decidiu mudar os termos de sua delação para acusar Cunha de ter cobrado e recebido uma propina de US$ 5 milhões por intermédio do lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano? Cunha afirma que isso é uma mentira e acusa o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de ser o responsável por persegui-lo, em conluio com o governo do PT. Catta Preta disse que Camargo antes teve medo de envolver Cunha. Novamente, voltamos à mesma questão: medo exatamente de quê? Por quê? O que aconteceu para que esse medo, de maio para cá, desaparecesse? Fatos concretos ajudariam a desmascarar aqueles que, infere-se, o ameaçavam.

Catta Preta tem razão ao afirmar que a Lava Jato há muito deixou de ser uma ação apenas no âmbito da Justiça. A disputa política nos bastidores é intensa e, à medida que novas revelações vêm à tona, cada um tenta manobrar os fatos para que sirvam melhor a seus interesses. Os acusados sempre afirmam que os delatores mentem. Mas os delatores sabem que, comprovada a mentira, perderão todos os benefícios da delação. O alcance das acusações é extenso, e apenas a apresentação de evidências concretas, declarações firmes que identifiquem os responsáveis sem evasivas e não deixem margem a especulação, contribuirá para esclarecer os fatos e punir todos os culpados – independentemente de partido político.

É absolutamente compreensível que Catta Preta, subitamente envolvida no ambiente tenso e amoral de Brasília, tenha decidido abandonar tudo aquilo para dedicar-se à família. Mas o modo como fez isso e as declarações que deu são infelizmente insuficientes para desbaratar a rede de ameaças de que ela própria se dizia vítima. O público ainda gostaria de saber mais. E ela mesma estaria mais segura se mais fatos viessem à tona.
G1

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